Pode parecer um contra-senso mas os teóricos do optimismo, os teóricos do sim à vida, compreendem muito bem a essência do trágico. E são normalmente conotados como gente pouco fiável, no sentido em que aceitar o trágico é, para um outro grupo de indivíduos, uma coisa estranha. Na realidade, não há nada de estranho em aceitar o trágico. Se há pouco ou nada a fazer sobre esse assunto é sobre a aceitação do trágico. O fim é sempre uma realidade para a qual, de uma forma ou de outra, devemos estar preparados. Bem sei que isto não é nada fácil, é mais simples dizê-lo do que vivê-lo, mas a partir do momento em que dizemos esta realidade aceitamos com maior facilidade a sua existência. Por isso, aceitar o trágico não é ser fatalista. É ser realista. De nada vale esconder o carácter efémero da vida, ou a sua precariedade. Se o não fizermos vivemos numa angústia permanente que nos assombra constantemente.
Falar num optimismo trágico não é ser incoerente. Pelo contrário. É aceitar que dificilmente poderemos viver sem contradições. É ser coerente com as incoerências naturais do ser e da existência. Podemos dizer que assim é com a fidelidade. Por mais que a aceitemos, conhecemos muito bem os seus limites. Não quero com isto dizer que nunca ninguém foi completamente fiel. Acho que já existiram indivíduos muito fieis. Porém, a fidelidade per si é quase impossível de obter. Para vivermos em conformidade com a sociedade, não podemos ser completamente fieis e coerentes. E não o podemos precisamente porque, tal como a realidade trágica da vida, e da luz que usamos para viver, dificilmente tal fidelidade e coerência poderão ser compatíveis com as exigências sociais, individuais, estruturais, extensionais e «intensionais». Quem vive numa lógica de permanente fidelidade, de permanente coerência, vive sob um estado de esquizofrenia, pois relaciona constantemente os valores com as estruturas, extensões, sensações, in-tensões e pensamentos. Das duas uma: ou vive para dentro, numa perspectiva esquisso; ou vive com medo das suas incoerências na conjugação com a rede em que está inserida. Vive atemorizada, perto de uma fragmentação interna, angustiada.
Para demonstrar tais necessidades de contradição, posso relembrar como vivem alguns grandes ideólogos, políticos e pensadores. No discurso pintam um mundo, uma forma de ser, de pensar; na maioria dos casos apelam à importância da pluralidade de ideias, à democracia de pensamentos, à liberdade de expressão. No entanto, se vasculharmos bem o seu dia-a-dia, as suas atitudes, encontramos incoerências tão evidentes que desconstroem todo o discurso, pensamento e ideologia. O adágio olha para o que eu digo e não para o que eu faço resume bem este comportamento frequente. Na realidade, fazer o que se sente, por vezes, é mais proveitoso do que fazer o que está instituído como correcto. É esta tal infidelidade, esta tal incoerência quotidiana que sustenta a base da minha ideia. Dificilmente seremos completamente fieis. Primeiro porque não o somos a nós próprios; depois porque a partir do momento em que nem a nós próprios somos fieis então dificilmente o seremos em relação aos outros. E isto está estipulado tacitamente, senão explicitamente, no contrato social da vida em conjunto, no contrato comunicacional da existência. Quantas vezes não olhamos, seduzimos ou desejamos sem querermos completamente? Quantas vezes não profanamos os nossos valores e éticas? Quantas vezes não quisemos ser incoerentes com as nossas tarefas ou deveres?
Não aceitar esta realidade «contraditorial» é, muito honestamente, hipocrisia. Eu não estou a afirmar que os indivíduos são, por natureza, maus. Pelo contrário! Isto é dizer que nem somos bons nem maus, se quisermos usar esta dicotomia cristã. É dizer que somos, simplesmente. Vivemos e a própria vida condiciona e fomenta esta realidade. É obvio que a intensidade, a forma, enfim, a energia que nos move neste sentido é diferente de contexto para contexto, de indivíduo para indivíduo, de ambiente social para ambiente social. Mas, de um forma ou de outra, não nos livramos de tais contradições. Porque são elas a base da nossa existência, misto de vivência interna com vivência externa. O facto de termos um corpo e vivermos num corpo já é uma contradição natural. O facto de termos uma mente e viver em conjunto com outras mentes gera, por natureza, necessidades de ajustamento que nem sempre nos interessam. É isto que torna a existência complexa, mas ao mesmo tempo gratificante. É aceitarmos a tensão como algo positivo e negativo ao mesmo tempo, pois despoleta coisas boas e coisas más.
Por outras palavras, podemos dizer que isto é viver. E se não entendermos que viver é isto mesmo então não vivemos. Simplesmente existimos. Faz lembrar aqueles que existem só para serem melhores do que os pares que conhecem, com quem convivem ou trabalham ou travam momentos. Existir assim é existir dentro de uma mentira. Na realidade, eles não existem para viver. Existem antes para afirmarem que a sua existência é melhor do que a dos outros. Não interessa como dançam, como pensam ou como cantam. Interessa é que dancem, pensem ou cantem melhor que os outros a que se propõem imitar ou sobrepor. Isto é, é viver em função da aniquilação do outro. Da destruição do outro enquanto igual. Dizem-se coerentes, pois perseguem o objectivo que definiram, mas no entanto perdem coerência, pois normalmente afirmam que vivem para serem os melhores. Ora, pensar em ser melhor que os outros não é pensar em ser o melhor no que fazem. É pensar que são os melhores apenas dentro do contexto em que vivem. Quem quer ser verdadeiramente o melhor não pode pensar apenas no seu contexto, e sabe bem disso. Por isso, embora queiram ser os melhores, e sintam que nunca o vão conseguir, perseguem o próximo e tentam a sua aniquilação, pois mesmo que não sejam os melhores, contentam-se com a aniquilação do próximo, sendo infiéis aos verdadeiros objectivos.
Bem sei que este é um jogo complexo. No entanto, a vida é assim. Se quisermos simplificar, é um jogo complexo. Uns jogam-na de forma mais complexa do que outros, pois normalmente adicionam a angústia interna como factor dinâmico. Outros tentam uma existência menos complexa. E outros tentam um misto entre existência complexa e vivência simples. Aceitar que a existência pode ser vista por uma tríade complexa pode ajudar a viver. Aceitar a já referida contradição Pessoana quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo pode também ajudar a pensar. Bem sei que vai angustiar ainda mais muita gente, mas só assim entendemos a existência humana: dentro de sucessivas infidelidades e contradições.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
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