A passagem da comunicação e informação unilateral (mass-media) para a comunicação horizontal (self-media) tem sido responsável pela introdução do subjectivo nos conteúdos e formas da vida pós-moderna. Valores como o hedonismo, o tribalismo, o nomadismo, o fragmentário, a fusão, entre outros, conseguem através das tecnologias actuais uma maior expressão e um maior grau de recombinação das formas e dos conteúdos humanos. Todas estas dinâmicas permitem uma expressão social mais heterogénea e plural do que na era moderna. Assistimos actualmente a um crescimento exponencial da cultura subjectiva, pois se na modernidade reinava a objectivação maquínica e a racionalidade social, na pós-modernidade parece assistir-se, através das fusões entre antropológico e tecnológico, a uma inversão do peso da cultura objectiva em detrimento da experiência cultural subjectiva.
Podemos considerar que a era moderna ainda constitui a base da dinâmica cultural existente actualmente. De facto, faz ainda sentido pensar como Simmel acerca da cultura, uma tragédia que permite processos de objectivação do sujeito e de subjectivação dos objectos (Garcia, 2003). Porém, para Lipovetsky e Serroy (2010), importa referir três grandes alterações sociais que marcam o espírito cultural actual: o desenvolvimento dos mercados; o desenvolvimento de um espírito individualista; e a transmutação cultural, baseada na emergência de uma Cultura-Mundo que se desenvolveu num mundo tentacular e globalizado. Para estes dois autores, a Cultura-Mundo é entendida como um sistema económico-cultural do hipercapitalismo globalizado, e nela estão inscritas também dimensões como as industrias culturais e o ciberespaço (Lipovetsky e Serroy, 2010: 85).
Nesta Cultura-Mundo, onde reside o ciberespaço, vive-se de uma forma mais conectada, ampliada por inúmeros aparatos tecnológicos que conectam os indivíduos. Começa, pois, a ser urgente à sociologia encontrar formas de explicar a vivência contemporânea também nestes ambientes digitais. Por isso, faz sentido actualmente retomar a concepção de Sociologia de Gabriel Tarde que preconiza essa ciência social como a ciência que estuda as imitações. Para este autor, segundo Marsden (2000:3), a sociedade é a imitação pois esta permite dinamizar as coisas e as causas sociais. Portanto, Tarde considera que a sociedade depende, sobretudo, de: originalidade social, que reside na recombinação de imitações existentes; sucesso das diferentes imitações, que será o factor dinâmico da sociedade, pois a adaptação e a compatibilidade serão factores sociais determinantes; selecção das imitações, que vão depender ou da acumulação lógica de imitações ou de uma substituição resultante de um duelo lógico entre duas alternativas (Marsden, 2000: 3).
Ao estudarmos as problemáticas da cibercultura e do ciberespaço por este prisma, é possível entender as dinâmicas e os fluxos sociais como conjuntos de imitações que decorrem sobre a alçada de uma cultura, que é, tal como todas as culturas, “(…) um consórcio entre o espírito objectivo e o subjectivo” (cf. Garcia, Ver artigo simmel e Tecnologia). Assim, vemos nas imitações os motores para a subjectivação e para a comunicação intermental e intersubjectiva entre indivíduos, onde as ideias e as tradições comuns, a língua ou uma tradução comum, os hábitos ou as atitudes, são transmitidos sob processos de imitação social (Marsden, 2000: 4).
Ora, viver a cibercultura pode ser compreendido neste espírito de fusão entre objectivo e subjectivo, onde o espírito da imitação e da partilha, sujeitas a objectivação e subjectivação, constituem a âmago do cibermundo. Tarde (1898a:67), citado por Marco António Antunes, refere que "A verdade é que uma coisa social qualquer, uma palavra de uma língua, um rito de uma religião, um segredo de um ofício, um procedimento de arte, um artigo de lei, uma máxima moral, se transmite e passa, não do grupo social tomado colectivamente ao indivíduo, mas certamente de um indivíduo - parente, mãe, amigo, vizinho, camarada - a um outro indivíduo, e que, na passagem de um espírito num outro espírito ela [a coisa social] se refracte". (In http://www.bocc.ubi.pt/pag/antunes-marco-gabriel-tarde.html)
Temos portanto esta ideia: passagem da subjectividade para a intersubjectividade para compreender os indivíduos e os seus laços sociais. Uma ideia também próxima de Simmel, embora este último realce bastante a importância da objectividade na transmissão social. Independentemente de tais afinidades, ambos concebem a sociedade como conjuntos de conexões. Tarde “afirmava vigorosamente que o social não constituía um domínio particular da realidade, mas um princípio de conexões; (…) que o estudo da inovação, e particularmente da ciência e da tecnologia, era um terreno fértil da teoria social”. (Latour, XXX: 13)(em http://www.scribd.com/doc/4414325/Bruno-Latour- pág. 13)
Perspectivar assim a sociologia permite pensar o social como um princípio de conexões que extravasam o limite imposto por outros cientistas sociais. Estas ideias iniciam, de certa forma, algumas posições posteriores de outros autores: Simmel (XXX: pág. 68) com a ideia de estudar a sociedade colocando a ênfase na corrente que liga sujeitos a sujeitos através de objectos; Norbert Elias, com a ideia de «encarnações das psiques» quando fala na «alma» dos objectos técnicos (1989 [1939]); Simondon (1969) quando fala da tecnologia como «modo de existência»; e em Latour, com a sua teoria do actor-rede (2005 ANT).
De Tarde a Latour, passando por Simmel, Elias ou Simondon, o pensamento sociológico sob estas perspectivas concede grande importância ao estudo das (re)combinações entre humano e não humano. É precisamente este enfoque que nos interessa dar ao abordar as questões da cibercultura. Ou melhor, às questões que se levantam na relação entre humanos e tecnologias. Portanto, abordar a tecnologia e os seus sistemas e instrumentos por esta perspectiva, perspectiva a que muitos autores chamam, entre os quais TRIST (1981), de sócio-técnica, pode ser interessante para aprofundar o entendimento dos novos fenómenos sociais. Se Considerarmos a Galáxia Internet (Castells, XXX) um lugar privilegiado de reencantamento do mundo, devemos então olhar para o interior dessa galáxia e tentar perceber como é que esta funciona. Importa, por isso, descrever não exaustivamente mas de forma concisa uma das aplicações que mais dinamiza a actividade da galáxia internet: as redes sociais digitais. Referimo-nos, mais precisamente, àquilo a que alguns autores, entre os quais Trippi (2004) ou Vaireda e Estetella (2007), denominam de «Softwares sociais». Mas não em todos os Softwares sociais existentes. Vamos apenas concentrar-nos no Software social que nos últimos tempos mais tem crescido em Portugal: o Facebook.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário