Importa retomar algumas considerações levantadas por José Gil acerca do Portugal de hoje. Nomeadamente, o divórcio existente entre conhecimento e democracia. Para este autor, três grandes fenómenos continuam a assombrar Portugal nesta relação:
a. a ausência de um «espaço público» na sociedade portuguesa;
b. a existência do fenómeno da não-inscrição;
c. a existência de uma enorme tendência para a normalização, que gera limites internos muito aquém dos que necessários para estabelecer uma vida em comum;
O primeiro fenómeno que explica o divórcio entre conhecimento e democracia, segundo o filósofo José Gil, diz respeito à inexistência de um tal «espaço público» que deveria permitir, entre outras coisas, a exteriorização dos indivíduos. Isto torna a sociedade portuguesa uma sociedade fechada, incapaz de produzir algo de novo, parando a democracia e permitindo a existência de velhos hábitos democráticos que nada trazem de interessante. Esta ausência de espaço público separa as instituições umas das outras, separando necessariamente os indivíduos por grupos ou castas, e fomentando, por isso, a fragmentação social. Em vez do «espaço público», impera a televisão que pouco ou nada traz de democrático.
O segundo fenómeno refere-se a um hábito que remonta aos velhos tempos da constituição da I república portuguesa. É o fenómeno da não-inscrição, que consiste na irresponsabilidade, num medo antigo que herdamos desde o tempo das grandes vassalagens, numa falta de motivação para a acção, numa resistência ao cumprimento da lei, etc. Enfim, numa inércia que faz com que não se registem os acontecimentos e, por isso mesmo, não se marque o real. Um bom exemplo recente da não-inscrição é o 25 de Abril, onde o esquecimento, a irresponsabilidade, a falta de motivação para compreender as mudanças dessa revolução marcam as gerações mais jovens. Não inscrever o passado salazarista teve (e continua a ter) efeitos enormes na incorporação inconsciente do espaço traumático que se vivia no passado. E esses efeitos devem-se à incorporação confusa, e não raras vezes distorcida, por parte das gerações seguintes, do que foi esse regime. Infelizmente, a não-inscrição continua hoje, pois nada tem efeitos reais e concretos: BPN, Face oculta, Sucateiro, etc. Tudo continua na mesma!
O terceiro fenómeno a explicar o divórcio entre conhecimento e democracia é, para Gil, a normalização, que gera limites capazes de impedir as zonas criativas da existência humana. Fomos no passado recente uma sociedade disciplinadora, com demasiadas correntes e entraves à inovação, criação e debate. Na realidade, nunca chegamos a entrar, durante essa fase, dentro do espírito das sociedades modernas, industriais, baseadas na razão dos conhecimentos científicos. Ficamos presos a um regime que fez dos portugueses adultos crianças grandes, com crenças supérfluas, ridículas e geradoras de inércia social. Hoje, num mundo globalizado, somos, desde a adesão à U.E., obrigados a entrar numa pós-modernidade que já esqueceu os valores da modernidade e que se vira a toda a força para valores como o tribalismo, o nomadismo e, sobretudo, o hedonismo onde viver a vida no presente, como se de uma obra de arte se tratasse, é a máxima mor. Estamos, portanto, a meio caminho dos dois lados: a meio do caminho de uma modernidade que na realidade nunca vivemos; e a meio do caminho de uma pós-modernidade que, sem as bases das vivências modernas, sem a incorporação e a maturação necessárias da ética científica que sustenta as evoluções, nos deixa cada vez mais confusos no rumo a seguir e no passado a incorporar.
Depois desta exposição, faço uma pergunta séria aos leitores: ficaram admirados com esta lúcida forma de descrever o Portugal de hoje? Bom. Se ficaram admirados é porque se revêem completamente neste traçado; é porque a desatenção gerada pelos três fenómenos foi realmente de tal forma potente que não vos permitiu entender os grandes males do Portugal de hoje até aqui; é porque a inércia criada pela normalização fora tanta que se conseguem rever completamente nestas explicações.
É a vida, pois. Que mais quereis que vos diga? Assim é a vida cá dentro do nosso país. E é assim não por explicação divina ou pela existência de um fado que nos irá assombrar sempre. É assim porque, precisamente, não há «espaço público» para que os indivíduos se manifestem; porque nada se regista e, por isso mesmo, os mesmos de sempre vão, enquanto as forças duram, comandando as naus portuguesas; e porque tudo está de tal forma normalizado que mesmo os que se tentam virar contra os limites da norma são, imediatamente, postos na ordem por aqueles que não querem mudanças que afectem a ordem “natural” das coisas.
Querem que vos diga muito honestamente o que penso? Eu sinto exactamente tudo isto. E sabem porquê? Porque todo este legado mental e cultural é forçado por uma coisa que nunca devemos ignorar: a força do inconsciente colectivo. Ninguém lhe pode resistir. Tal como diria Jung: “Todo Romano era cercado por escravos. O escravo e a sua psicologia inundaram a Itália antiga, e todo o Romano se tornou interiormente – e, claro, inconscientemente - um escravo. Vivendo constantemente na atmosfera dos escravos, ele se contaminou de sua psicologia, através do inconsciente. Ninguém consegue evitar essa influência”.
Isto é ironia? Sim. Bastante. Prometo nem sequer tentar aplicar estas considerações ao concelho de Ponte da Barca e aos seus concelhos vizinhos, pois sei que enquanto ledes este artigo a vossa imaginação voará pelos planaltos da realidade envolvente.
segunda-feira, 1 de março de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Temos de arranjar em Portugal um "Speaker's Corner", onde possamos expressar as nossas ideias sem, hummm, digamos, censura?! Podíamos começar por colocar um palanque no jardim dos poetas...
ResponderExcluirsim
ResponderExcluirno poetas ou na lapa...ahahahahahahaha