quarta-feira, 2 de junho de 2010

A individuação da crise

É muito comum hoje ouvirmos a palavra crise. Porém, a palavra crise têm vários significados. Segundo antigas concepções, da história medieval, crise poderia aparecer no sétimo, no décimo quarto, no vigésimo primeiro ou no vigésimo oitavo dias da evolução de uma doença. Essa crise, ligada à doença, constituía um momento decisivo, para a cura ou para a morte. Foi assim que a palavra crise entrou posteriormente no dicionário da medicina – crise como o momento que define a evolução de uma doença para a cura ou para a morte (Houaiss e Villar, 2001: 1132).
Mais tarde, para a psicanálise, o termo crise aparece significando um estado de manifestação aguda ou de agravamento de uma doença emocional e/ou mental, suscitado pela interferência de factores objectivos e/ou subjectivos. E na mesma época em que entrou no léxico da psicanálise, entrou também no léxico da economia (século XIX) como sendo um estado de incerteza, vacilação ou declínio, grave desequilíbrio conjuntural entre a produção e o consumo, acarretando aviltamento de preços e e/ou da moeda, onda de falências e de desemprego, desorganização dos compromissos comerciais. Curiosamente, em simultâneo, a sociologia adopta o termo e trata-o como um episódio ou uma situação social difícil, desgastante e duradoura, situação de tensão momentânea originadora de escassez, carência e conflito.
Portanto, nem sempre a palavra crise significou algo de apenas negativo, de prejudicial. Na medicina medieval e até na actual a palavra crise permite aceder aos dois lados, a cura ou a morte. Foi sobretudo o racionalismo expresso pelas forças da razão da era moderna que conferiram à palavra crise uma ordem com aura negativa. Crise deixou de significar, no geral, algo que poderia originar um de dois efeitos para ser considerada apenas como uma consequência negativa da evolução (psíquica, económica, política, social, etc.).
É portanto necessário ir à origem etimológica da palavra, nas suas variações latinas e gregas. Em latim, crisis significa momento de decisão, de mudança súbita; em grego, krísis significa acção ou faculdade de distinguir, uma decisão difícil a tomar (Ibid.: 1132).
Ora, de acordo com o sentido etimológico da palavra crise, o significado que hoje vemos naqueles que usam hoje o termo crise é apenas o seu sentido pejorativo. O sentido de momento de decisão, de mudança súbita e difícil e de faculdade de distinguir está completamente esquecido. E está esquecido precisamente porque já não se é capaz socialmente de distinguir as crises, ou melhor, os momentos de decisão que durante toda a história emergiram e foram de difícil escolha.
De que crise falam aqueles que constantemente usam o termo crise? Brincando com uma frase célebre de Fernando Pessoa, e adaptando-a para este propósito, é caso para referir que quando falo de crise nunca sei com que crise falo.
Alguns economistas falam de uma actual crise económica profunda, onde os mercados bolsistas revelam incerteza e indeterminação e a falência de empresas gera desemprego em massa. Desta forma, as taxas de juro sobem e o crédito fica mais difícil, e sem o acesso ao crédito o mundo económico deixa de ser o que era antes.
Para alguns políticos, o grande problema reside na insuficiência dos modelos de gestão política, como por exemplo o estado-social. A insuficiência desses modelos e as promessas por cumprir geram uma crise de confiança nos governados, levando ao divórcio entre democracia e povo.
Por seu turno, os ambientalistas falam de uma crise global, que tem origem na insaciável sede de poder dos humanos e que os leva a destruir todos os recursos naturais. O aquecimento global é um sintoma dessa crise ambiental que já se revela em forma de alargamento dos pólos climatéricos.
Por outro lado, ouvem-se as vozes dos críticos da técnica, que vêem nos destinos da humanidade a crise do humano em direcção ao pós-humano, pós-humano aperfeiçoado pelas extensões da técnica. Para alguns destes autores, é o fim da história que se apresenta aos nossos olhos, sem que nada possamos fazer já que a autonomia da técnica está doravante consumada.
Por último, e para não alongar os exemplos, temos alguns filósofos e pensadores que vêem apenas uma crise, a dos valores, onde a imposição do hedonismo e do individualismo sobre o mundo está a fazer decair os grandes valores colectivos.
De tantas crises que nos aparecem veladas no discurso quotidiano, acreditamos mesmo que vivemos numa era de crise. E acreditamos que vivemos, sobretudo, numa era de crise apenas com efeitos negativos, pois o possível sentido positivo do termo crise fora já esquecido no século XIX.
É nesta atmosfera que vivemos hoje. O que é uma atmosfera? É um certo regime que o olhar traz à visão global das coisas. E que olhar é esse que hoje temos sobre o mundo? É o olhar assombrado pela crise, ou melhor, pelas crises e pela sua excrescência. É possível hoje, no mundo ocidental, viver sem a atmosfera da crise?
Não. De todo. Jung dizia que pelo facto dos guardas romanos conviverem diariamente com os escravos a sua psicologia era afectada através do inconsciente. Inconscientemente, os guardas anexaram a psicologia dos escravos. Do mesmo modo, podemos dizer que hoje mesmo aqueles que reflictam sobre isto da crise dificilmente ficarão incólumes ao seu poder, que ganhou vida nos corpos e nas psiques dos indivíduos.
Baudrillard falava na capacidade que os media tinham em gerar implosão social do sentido. É verdade! Porém, esta crise está já num outro nível. Sob a perspectiva da sociologia da individuação, é caso para referir que a atmosfera da crise alastrou-se, como um eco social que bate em todas as paredes sociais e reflecte sempre o mesmo tom; esse eco entrou e instalou-se no interior dos indivíduos, gerando uma ressonância interna capaz de gritar através do inconsciente até ao consciente individual e colectivo. O processo oposto acontece, dos indivíduos ao social, e o retorno ao eco da crise vem já com novas contribuições imprimidas pela subjectividade dos indivíduos.
Sabemos bem que só é possível falar em crise atendendo às dimensões do espaço e do tempo. Do espaço porque ela tem que se materializar dentro de um contexto físico diferente de outros contextos; do tempo porque crise só é crise quando, tal como diz a origem etimológica da palavra, um novo regime tende a substituir um antigo. Nesse aspecto é caso para repensar ainda mais a expressão ‘crise’.
Por exemplo, quando se diz que hoje não há empregos para os jovens, é caso para reflectir sobre que jovens se está a falar. É que se estivermos a falar de jovens que entraram no mercado de trabalho por exemplo nos últimos cinco anos, nunca o regime, pelo menos em Portugal, foi diferente nesse período quinquenal. Os jovens que entraram no mercado de trabalho há cinco anos sentem a mesma crise hoje como a do passado. Que diferenças existem desde aí? Dessa forma, para esses não se pode falar de crise pois sempre estiveram mal e nunca conheceram um regime diferente. Já em relação aos mais idosos, os idosos portugueses por exemplo, quando ouvem falar de crise perguntam espantados: crise? Qual crise? É que no tempo deles uma sardinha era dividida por duas pessoas e hoje, em comparação com essa era, o excesso está em todas as dimensões. Se hoje há crise, essa então está distante do sentido negativo que hoje a palavra suporta. Tal como eles dizem, se a crise é tanta porquê tanto desperdício?
O mesmo exemplo pode ser retirado dos valores. A crise negativa dos valores, que é referida por muitos pensadores, só pode ser exultada por aqueles que podem comparar gerações diferentes. Os valores dos pais já não são completamente os valores dos filhos. No entanto, numa atmosfera diferente, sem modos de comparação, não é possível chamar crise de valores quando as gerações mais jovens desconhecem na realidade e na prática a atmosfera anterior.
Para quem se dirige então a crise? Qual é a crise que o mundo atravessa?
A existência de uma crise é algo muito relativo, pois depende da situação social, física, económica, política, ambiental, entre outras dimensões, daqueles que proferem o termo crise. Na maioria dos casos, a palavra é invocada apenas para realçar e resumir aquilo que quem a profere considera mal, e não propriamente para mostrar verdadeiramente a crise. É a tal entropia das palavras, implosão social do seu sentido, que se incarna, ou melhor, se individua e se alastra com força autónoma, parecendo dizer tudo, mas não dizendo nada na realidade. É uma tal individuação do sentido negativo das coisas, aquilo que adquire o poder que a força da palavra crise ostenta hoje, e que pode ser arremessada sem que se acautelem os danos. Não é isso o substrato da especulação bolsista? Não é essa a força que confere aos economistas centralidade no mundo actual? Não é assim que os ambientalistas chamam a atenção global para os perigos da humanidade? Não é assim que os políticos constroem as medidas de gestão para o futuro? Não é assim que os pensadores encontram matéria para se debruçar?

1 comentários:

  1. A crise em Portugal é crónica e tem paradigmas que se arrastam de século em século.Muitas das vezes Portugal acumula quer crises financeiras,sociais,económicas e de confiança nos mercados e nas instituiçoês.Mas na realidade o termo crise é usado para tudo o que corra mal ao individuo,pois na minha óptica naõ existe uma crise adicional á financeira que tem como responsáveis factores politico-partidários,visto que os problemas saõ mais estruturais.Se uma crise financeira naõ for selucionavel,poderá-lhe proceder uma crise social e politica,o que naõ seria benéfico para o país.

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