quarta-feira, 14 de julho de 2010

Materialmente ricos, interiormente pobres

Vive-se hoje mais tempo, compram-se coisas que no passado eram inacessíveis, temos mais dinheiro disponível e mais possibilidades de acesso a bens que no passado eram quase inatingíveis. Vivemos hoje melhor materialmente. Porém, viver bem materialmente não significa viver bem na sua plenitude. Hoje a pobreza é de outra ordem, de uma ordem interna, espiritual. A ansiedade, o stress, o pânico, a depressão, o medo do desemprego, todos estes fantasmas e mais alguns corroem-nos, deixando-nos infelizes, dependentes do dinheiro para o acesso à satisfação ilusória gerada pelos bens materiais. Como recorda lipovetsky, “O consumidor é mais livre, porque tem mais escolha, mas, ao mesmo tempo, menos livre, porque sem dinheiro não sabemos como ocupar o tempo”(JN - http://jn.sapo.pt/Domingo/Interior.aspx?content_id=1535438).
Mais livres, porque hoje os indivíduos têm mais opção de escolha. Homens e mulheres, sobretudo estas que no passado estavam tolhidas pelo domínio masculino, podem ter carreira, decidir o número de filhos e não estarem sujeitos às decisões externas. Isto mostra bem o grau de liberdade social. Porém, vivemos mais angustiados, mais solitários, pois embora as conexões aumentem, diferentes tipos de relações sociais complexificam as ligações pós-modernas.
Nas relações sociais é importante salientar a transformação em curso: passamos, maioritariamente, de relacionamentos para conexões. E qual é a diferença? Nos relacionamentos existem laços desejáveis e indesejáveis, mas os indesejáveis não se podem romper facilmente; já com as conexões, apenas subsistem os laços desejáveis, pois em rede a facilidade de corte dos laços não implica nem grande esforço nem grande ruptura (Bauman, 2006: 14). A fluidez hoje exigida aponta para a quantidade, mas uma quantidade selectiva, que segue a via do impulso e por isso a da satisfação momentânea.
A satisfação momentânea é o grande vector actual. Como tal, tudo o que é pouco durável e instantâneo vive-se apenas materialmente, já que o interno e o espiritual é da ordem do durável. E é pelo vector do momentâneo que o material se expressa: carradas de prazeres para serem gozados numa só noite; festas exacerbadas esquecendo o amanhã; consumo de bens e produtos por impulso; mercado de trabalho que vive sob a lógica do curto prazo; possibilidades de comunicação instantânea que simulam a sensação de fixação espacial - embora na realidade se subjective na impossibilidade de fixação num só lugar (efeito de fluxo).
O vector do momentâneo carrega, por isso, a força do vazio interno, a expressão de uma corrosão que deixa os indivíduos com a sensação confusa de ausência de preenchimento, um sentimento de um pânico generalizado e um medo de algo que se aproxima mas que não dá sinais exteriores de aproximação. É o tal paradoxo enunciado atrás que se instala nos corpos, uma atmosfera que mostra o melhor lado externo e estético do mundo mas que oculta bem o lado mais temeroso e vazio da humanidade. Sensação contínua de falta de controlo na vida, sensação de perda de algo que não se sabe bem o que é, sensação de um desconhecido que se esconde atrás da compra do novo automóvel ou da casa de férias. É o monstro do fragmentário que anda por aí, de esquina em esquina, de telemóvel em telemóvel, de relação em relação, tudo aponta para o vazio interno.
Prolifera, por isso, a atmosfera do estético-material, como se toda a expressão se esgotasse no externo. É uma ilusão subjectivada pelos indivíduos, mas que no entanto não pára de ser vendida em todo o tipo de expressões culturais: a cultura-mundo como fluxo mercantil é ela própria uma espécie de expressão externa, material, como se a cultura fosse um bem de consumo rápido. Não deixa, no entanto, de ser uma forma de expressão do singular e do individual, pois toda a cultura-mundo oferece a possibilidade de ser entendida e exprimida de forma singular pelos que lhe estão sujeitos. Tal como toda a estética, a cultura-mundo material torna-se assim um lugar de vivência subjectiva, embora transaccionada aparentemente como algo objectivo. É essa ilusão que gera o vazio interno, vazio que se instala sem que os indivíduos se apercebam da sua presença, pois o material farto faz esquecer a necessidade de um interior farto.

0 comentários:

Postar um comentário