terça-feira, 28 de setembro de 2010

Entre a circum-navegação socializante e a circum-visão individuante

O autor Stéphane Hugon propôs, em 2007, “a metáfora da “circum-navegação” para caracterizar a experiência contemporânea, uma experiência fundamentalmente tecnológica” (Martins, 2010: 10).
Essa metáfora da circum-navegação leva-nos, certamente, pelo imaginário dos descobrimentos, sobretudo pela aventura trágica do barquense Fernão de Magalhães que tinha como assente a circum-navegação como uma “experiência da travessia de oceanos e da ultrapassagem do limite estabelecido, de mares, terras e conhecimentos” (Ibid.: 10). Nessa circum-navegação, a da era clássica, “houve o sextante, o astrolábio e a esfera armilar (…) [e] as estrelas para nos conduzir na noite” (Ibid.: 10-11).
Todavia, a circum-navegação de que fala Stéphane Hugon já não usa o sextante, o astrolábio nem a esfera armilar. Como experiência fundamentalmente tecnológica, a circum-navegação contemporânea usa sobretudo uma panóplia alargada de objectos técnicos, combinados ou separados, mas sempre prontos a provocar nos indivíduos circum-navegadores uma certa intensificação da estimulação nervosa.
Os pontos de luz (as estrelas) da era clássica serviam para referenciar os pontos de passagem dos navegadores tal como os candeeiros iluminam o caminho guiando os transeuntes pelas avenidas, ruas e becos das grandes metrópoles. Assim, a circum-navegação pelo mar torna-se próxima, na base, da circum-navegação pela metrópole.
Encontramos portanto semelhanças nos pontos de referência da era clássica e da metrópole da era moderna, esses pontos de luz que iluminavam, e ainda iluminam, as circum-navegações: estrelas na era clássica e candeeiros na grande metrópole (da era moderna ou pós-moderna). Falta-nos apenas juntar os pontos de luz referenciais da tecnologia, aqueles que se vislumbram constantemente no ciberespaço, as tais “linhas de luz alinhadas no não-espaço da mente, clusters e constelações de dados. Como luzes da cidade, afastando-se...” (Gibson, 1984). Assim, estrelas, candeeiros e ecrãs constituem uma intersecção de pontos cardeais que de forma transversal atravessam três eras diferentes: era clássica (estrelas), era moderna (candeeiro) e mundo actual (ecrãs).

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