Num dia ao entardecer, um servo de baixa condição, desempregado há já tempo suficiente para morrer à fome, abrigou-se da chuva sob Rachômon - nome do Portal que, na era Heian (794-1192), se situava na entrada principal da milenar Capital, actual cidade de Quioto, hoje equivalente à região em que se encontra a Estação Central.
Sob o amplo portal, além daquele homem, não havia mais ninguém - Somente um grilo.
Nos últimos dois ou três anos, Quioto sofrera seguidas calamidades: terremotos, redemoinhos, incêndios e fome. Por essas razões, era enorme a desolação no centro da Capital. Rezam as antigas crônicas que naquele tempo estátuas de Buda e objectos de culto budista eram destruídos empilhando-se na beira da estrada a madeira ainda laqueada ou folheada a ouro e prata para ser vendida como lenha.
Assim, tirando partido do abandono em que o Portal se encontrava, raposas e texugos começaram a se abrigar ali. E também ladrões. Até que, afinal, passado um tempo, virou hábito abandonar, no Rashômon, cadáveres não reclamados. Por isso, quando a luz do dia não podia mais ser vista, era tamanho o pavor que ninguém mais ousava se aproximar.
Corvos começaram então a se juntar em bandos, vindos sabe-se lá de onde. Durante o dia, inumeráveis, eles descreviam círculos e grasnavam ao redor da alta cumeeira. No crepúsculo, quando o sol se avermelhava sobre o Portal, facilmente podiam ser divisados, como grãos de gergelim dispersos no ar. Vinham, obviamente, alimentar-se da carne dos mortos abandonados na galeria – naquele dia nada se via.
Acocorado no último dos sete degraus, sob o tecido surrado de sua vestimenta azul-escura, o servo olhava a chuva, distraído, sentindo-se incomodado com a enorme espinha que lhe aparecera na face direita. Mas o servo, embora esperasse que a chuva passasse, não tinha para onde ir, nem o que fazer depois dela. Normalmente, deveria regressar à casa do seu senhor, mas como tinha sido dispensado há 4 ou 5 dias (devido à decadência geral do país), estava ali mais para ver o mundo a passar do que propriamente à espera do fim da chuva.
Além do mais, o tempo chuvoso contribuía sensivelmente para a disposição de espírito daquele homem da era Heian. A chuva que caía desde as 4 da tarde estava a colocar o servo a escutar o seu som, de forma ausente, som esse que o levava ruminar pensamentos desconexos, sobretudo para resolver o problema da sua sobrevivência: o que fazer? Morrer à fome? Roubar, e matar se fosse o caso, para sobreviver?
A escuridão aos poucos fazia baixar o céu; quem levantasse os olhos veria o telhado do Rashômon, que se projectava em diagonal, sustentando nuvens pesadas e sombrias. Quando se tenta resolver uma questão complexa e determinante para a sobrevivência, não há tempo para escolher os meios. Se demorasse muito na escolha, o servo certamente terminaria morrendo de fome ao pé de um muro de barro ou à beira de uma estrada. E certamente seria trazido até o Portal e abandonado como um cão. “Se não escolher. . . ” Seu pensamento, depois de muitos rodeios, finalmente ficou nesse ponto. Entretanto, esse “se” continua sendo, afinal de contas, o mesmo “se”. Mesmo admitindo não haver escolha de meios, ele não tinha coragem suficiente para aceitar de forma positiva a resposta inevitável à questão: “A única saída é tornar-me ladrão”.
Depois de um forte espirro, o servo se ergueu preguiçosamente.
Em Quioto, onde as tardes são frias, a temperatura já baixara a ponto de fazê-lo ansiar por um braseiro. Na escuridão, o vento soprava implacável por entre as colunas do Portal.
Encolhendo-se todo e erguendo a gola da vestimenta azul-escura que envergava sobre a roupa amarela, correu os olhos em volta do Portal. Procurava um lugar onde pudesse passar a noite tranquilamente, longe de olhares estranhos e sob a protecção do vento e da chuva. Então, por sorte, descobriu uma escada larga, também laqueada de alaranjado, que conduzia a uma varanda sobre o Rashômon.
Lá em cima, o máximo que ele poderia encontrar seriam cadáveres. O servo, assim, cuidando para que a espada presa à sua cintura não se soltasse da bainha, pousou
no primeiro degrau o pé calçado de sandália de palha. Subiu então, daí a alguns minutos, a meia altura da ampla escada que conduzia à varanda do Rashômon.
O servo, desde o início, tinha a certeza de que ali no alto só haveria cadáveres. Todavia,
depois de subir dois ou três degraus, pareceu-lhe notar uma sombra que se movimentava. Logo isso se confirmou, pois uma claridade turva e amarelada se reflectia, oscilante, nos vãos do teto cobertos de teias de aranha. Não podia tratar-se apenas de uma pessoa comum que, numa noite de chuva como aquela, portasse um luzeiro no interior de uma galeria como aquela do Rashômon.
Abafando seus passos como uma lagartixa, o servo finalmente atingiu o último degrau da difícil escada. E então, com o corpo mais retesado possível, alongando o pescoço o mais que podia, ele perscrutou, transfigurado de medo, o interior da varanda.
De fato, conforme ouvira dizer, os cadáveres estavam desordenadamente no seu interior.
Mas, sendo o campo de luz mais limitado do que supunha, não conseguia precisar quantos. Ele somente podia distinguir, sob a fraca luminosidade, alguns corpos nus e outros ainda vestidos. Entre eles, parecia haver tanto homens quanto mulheres. E todos aqueles cadáveres jaziam sobre o assoalho, como bonecos de barro, as bocas abertas, os braços estirados, fazendo até duvidar que um dia tivessem sido humanos. Além do mais, à luz das chamas que iluminavam as partes salientes, como ombros e bustos, as outras partes pareciam ainda mais escuras. Os corpos conservavam-se mudos, para sempre calados.
O servo tapou instintivamente o nariz ao perceber o odor pútrido. Mas já no instante seguinte se esquecia de cobri-lo. Uma emoção mais forte anulou por completo seu olfacto.
Pois só então seus olhos distinguiram um ser humano, agachado em meio aos cadáveres. Era uma velha de aparência simiesca, os cabelos brancos, magra, baixa, vestida de ocre. Tendo na mão direita uma tocha de pinho, observava, detidamente, o rosto de um dos cadáveres. Pelos cabelos compridos, supunha-se que fosse um cadáver de mulher.
Tomado de sessenta por cento de terror e quarenta de curiosidade, o servo, por alguns instantes, até se esqueceu de respirar. Arrepiou-se e, para empregar a expressão de um antigo cronista, sentiu que “até os pêlos do corpo haviam ficado mais espessos”. Nisso, a velha prendeu a tocha de pinho numa fresta do soalho e, erguendo com as duas mãos o pescoço do cadáver que até então examinava, começou a arrancar um a um os longos fios de cabelo, exactamente como uma macaca catando piolhos do filhote. Os cabelos pareciam soltar-se facilmente ao movimento de suas mãos. À medida em que os fios iam sendo arrancados, o terror que assaltara o servo foi desaparecendo aos poucos. E, ao mesmo tempo, foi crescendo, pouco a pouco, um forte ódio contra aquela velha. Não, não seria exacto dizer “contra a velha”. Na verdade, o que a cada minuto se tornava mais forte era uma repulsa contra todos os males. Se naquele instante alguém lhe propusesse, outra vez, o dilema que antes o atormentara – morrer de fome ou tornar-se ladrão –, não hesitaria mais em escolher a morte pela fome. Pois seu ódio ao mal começava a ficar cada vez maior.
O servo não compreendia por que a velha arrancava os cabelos dos cadáveres. Por conseguinte, não tinha condições de julgar segundo a razão a moralidade daquele
acto. Entretanto, para ele, o simples fato de arrancar cabelos de cadáveres, numa noite de chuva como aquela, num lugar como aquele, já constituía um mal imperdoável. Obviamente, o servo já nem recordava que, havia poucos minutos, tencionava tornar-se ladrão.
Nesse instante, num movimento brusco, o servo pulou para dentro da varanda. E, com a mão na espada, aproximou-se da velha a passos largos. O autor nem precisa
dizer o susto que ela levou. Ao ver o servo, ela pulou, como uma pedra lançada por uma catapulta.
– Ei! Aonde vai? – vociferou o servo, barrando o caminho da velha, que procurava fugir, assustada, tropeçando entre os cadáveres. Mas, mesmo barrada, ela o empurrou, tentando escapar. Ele, por sua vez, para impedi-la de fugir, também a empurrou. Por um momento os dois se engalfinharam, mudos, no meio dos cadáveres. Mas o resultado
era previsível. O servo, torcendo-lhe o braço, terminou por derrubá-la. Quais pés de galinha, seus braços eram somente pele e osso.
– O que estava fazendo? Diga! Senão. . .
O servo atirou-a ao chão e, desembainhando a espada, apontou a lâmina de aço branca bem no meio de seus olhos. Entretanto, a velha se conservava calada. Com as
mãos trémulas, a respiração ofegante e os olhos esbugalhados obstinava-se em permanecer calada. Vendo-a assim, só então o servo percebeu claramente que aquela vida se encontrava totalmente em suas mãos, e tal consciência acabou por arrefecer o ódio que até então lhe inflamava o peito. Sentiu a satisfação e a confiança de quem executa um trabalho bem-sucedido. Assim, olhando a velha de cima, abrandou a voz.
– Não me tome por agente da polícia. Sou apenas um viajante que, por acaso, passava por esse Portal. Por isso, não vou prendê-la nem incomodá-la. Basta que me conte
o que estava fazendo na galeria numa hora dessas.
Nisso, a velha arregalou ainda mais os olhos e fixou-os no servo. Encarava-o com um olhar penetrante, as pálpebras vermelhas como as de aves de rapina. E a seguir,
como se estivesse mastigando, moveu uns lábios que quase se confundiam com o nariz devido ao número de rugas. Foi naquele instante que uma voz grasnada, como a de um corvo, se fez ouvir num arquejo:
– Estou arrancando estes cabelos, sabe?. . . Estes cabelos. . . pensando em fazer perucas para vender. . .
O servo ficou desapontado com a resposta, inesperadamente banal. E, com o desapontamento, sentiu retornar ao seu íntimo o ódio anterior, mas dessa vez acrescido de frio desprezo. A mudança de ânimo foi notada pela velha, que, ainda segurando os cabelos compridos que arrancara do cadáver, gaguejou, como se coaxasse baixinho:
– Pois é. . . Arrancar cabelos dos cadáveres pode ser errado. Mas todos os mortos que estão aqui, sem excepção, bem o merecem. Essa mulher, por exemplo, de quem
arranquei os cabelos, costumava vender cobra seca por peixe seco nas guaritas dos vigias do Palácio. Ela cortava as cobras em pedaços de meio palmo e secava-as. Se não
tivesse morrido na epidemia, certamente ainda estaria fazendo a mesma coisa. E note que os guardas achavam os peixes muitos saborosos. Para mim, o que ela fazia não era mau. Não tinha outra forma de sobreviver, senão morreria de fome. Não acho tampouco que eu esteja a agir de forma errada. Eu também morreria de fome, não tenho escolha. Por conseguinte, essa mulher, que sabia muito bem disso, sem duvida que me há-de perdoar.
O servo ouviu a história da velha, conservando a mão esquerda no punho da espada já embainhada. Enquanto ouvia, coçando as costas que o incomodavam, aos poucos lhe brotava certa coragem que, antes, quando estava debaixo do Portal, lhe fizera falta. Era
uma coragem que crescia numa direcção oposta àquela do momento em que agarrara a velha, ao subir à galeria. O servo não hesitava mais entre morrer de fome ou tornar-se
ladrão. Nesse momento, morrer de fome nem passava por sua cabeça; era uma alternativa que lhe fugira por completo à consciência.
– É isso mesmo! – disse o servo em tom de escárnio ao ouvir o fim do relato da velha. Adiantando-se um passo, subitamente afastou a mão direita da espinha, agarrou a
mulher pela gola e vociferou:
– Se é assim, não me leve a mal se eu roubá-la. Se eu não fizer isso, também o meu corpo irá morrer de fome.
Rapidamente, tirou-lhe as roupas. Depois, arremessou com violência a velha que se agarrava a seus pés e derrubou-a sobre os cadáveres. Estava apenas a cinco passos
da saída. Carregando a roupa de cor ocre sob o braço, precipitou-se escada abaixo rumo a uma noite profunda. Virou costas à decisão de morrer à fome e seguiu o seu caminho.
Por Akutagawa Ryûnosuke
Autor: Escritor Japonês (1892 – 1927), escreveu contos tradicionais japoneses e é um dos expoentes máximos do conto moderno. Baseado em antigos escritos e lendas japoneses, e especializado em literatura inglesa pela Universidade imperial de Tóquio, deteve-se sobre vários temas complexos da humanidade, entre os quais a loucura, o suicídio, a ética cristã, as tradições japonesas e a modernização japonesa iniciada na Era Meiji (1868 – 1912). Assombrado nos seus escritos por um profundo conflito interno, que era o de encontrar uma solução moral definitiva, acabou por se suicidar com apenas 35 anos.
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