Pedro Costa
09/03/2011
É um facto largamente aceite que com a revolução industrial do século XVIII assistimos à emergência de uma forma de personalidade livre. Ou seja, o indivíduo apreendeu o ideal de liberdade incorporando-o de forma tal que “difundiu a vontade de poder, fama, prestígio e distinção em um grau desconhecido até então (Simmel, XXX, 1). Assim, no século XVIII a liberdade torna-se “a bandeira universal pela qual o indivíduo protege seus mais variados desconfortos e necessidades de autoafirmação” (Simmel , 2), seja nas formas económicas, seja nas formas políticas, seja na “sua sublimação filosófica com Kant e Fichte, os quais elevaram o eu como referência última do mundo possível de ser conhecido, e defenderam sua absoluta autonomia como valor absoluto da esfera moral” (Ibidem).
As várias instituições (Igreja, estado, comércio e elites) que faziam pressão sobre os indivíduos fizeram nascer “o ideal da mera liberdade individual: quando apenas essas instituições, que constrangiam os potenciais da personalidade de maneira não-natural, desaparecessem, teríamos o desenvolvimento de todos os valores internos e externos, para os quais o potencial já era existente, apenas paralisados por forças políticas, religiosas e econômicas. Essa passagem equivaleria à transição da desrazão histórica à razão natural” (Ibidem).
Portanto, ao homem historicamente dado, sujeito às suas origens históricas, eis que se ergueria o homem natural, que no seu fundo teria uma síntese por um lado do homem genérico e historicamente dado, e por outro do homem peculiar, homem composto por uma individualidade singular. Teríamos então duas dimensões a constituir esse indivíduo: o homem pessoalizado seria aquele que tinha características que são comuns a todos; e o homem individualizado seria a peculiaridade máxima que o distingue de todos os restantes indivíduos.
É dentro deste quadro que Simmel, em O indivíduo e a Liberdade, conclui que a triangulação entre Liberdade, igualdade e fraternidade, muito exigida na revolução, originou um conjunto complexo de dinâmicas transformadoras do indivíduo moderno, mas também paradoxais: o indivíduo deve ser livre, e o seu valor é ele próprio; porém, para se realizar, deve ser igual a todos os outros. Ora, tentar ser livre, encontrar o seu valor próprio mas no entanto realizar-se na igualdade com os outros gerou um efeito interno contrário: desigualdade. Aliás, a desigualdade apenas precisou da liberdade para se explanar – quem encontra a liberdade não busca a igualdade, pois o lado peculiar que se solta na liberdade gera diferenciação interna e essa diferenciação interna tende a converter-se posteriormente em desigualdade e diferenciação externa. Há uma espécie de «obrigação ética» (Simmel 6-7) interna que lança o indivíduo na objectivação da diferença.
Esta dinâmica permitiu a solidificação das duas dimensões no indivíduo moderno: teríamos portanto individualismo simplesmente livre, indivíduos pensados como iguais; e a dimensão singular qualitativa, fundo das peculiaridades individuais. Ora, isto leva o autor a concluir que o que uniu igualdade e liberdade sem conflito foram os princípios económicos do século XIX (Simmel 8). Liberdade e igualdade somadas formaram o fundamento da livre concorrência, e singularidade diferenciada fundamentou a divisão social do trabalho. Estas foram “projecções económicas de aspectos metafísicos do indivíduo social” (ibid.: 9), que acabaram de certa forma por fazer um movimento de vaivém: do indivíduo para o social e do social para o indivíduo.
A partir desta explicação de Simmel podemos também começar a pensar no que se passou ao longo de todo o século XX até à actualidade. Constatamos que as duas dimensões do individualismo – livre (e igual) mas singular – gladiaram-se continuamente, ferozmente. Só depois de tantos avanços e recuos, depois da vitória da democracia sobre os regimes autoritários (guerras mundiais), depois da vitória do capitalismo sobre o comunismo, depois da massificação sobre o elitismo, depois do consumismo sobre o comunitarismo, depois da lógica de mass-media ser acompanhada pela lógica de self-media – sobretudo com o advento da Internet - eis que uma nova combinação emergiu em força do individualismo e se consolidou, representando hoje o símbolo das culturas das gerações mais jovens: a personalidade mediada.
Para além da combinação no individualismo gerada pelas formas económicas - para Simmel a única até ao fim da modernidade (XXX: 9) - e tal como este autor previa, um outro conjunto de combinações aparece para o desenvolvimento potencial da humanidade e do traço individualista, e novas forças e criações já se vislumbram actualmente.
Assim, se a personalidade livre despontou das correntes da Idade Média, e se a personalidade singular despontou da força interna para se contrapor à força do ideal de liberdade acorrentado às instituições, a personalidade mediada aparece para colmatar o carácter estanque das anteriores e introduzir maior fluidez entre as várias dimensões da vida e das formas.
Vários são os autores que de certa forma já anunciaram esta nova combinação do desenvolvimento humano: Deleuze falou na era dos fluxos, Virilio na velocidade da era da luz, Bauman nas «sociedades líquidas», Beck na «sociedade do risco», Casttels na «sociedade em rede». O que estes autores, entre outros, têm em comum é falarem num novo tipo de indivíduo que emergiu e que pertence a um novo estádio da humanidade, embora esta leitura só se torne mais visível a partir da sistematização e explicação histórico-sociológica de Simmel. Mas também se torna possível através dos ensinamentos, primeiramente de Carl Jung, posteriormente de Gilbert Simondon e mais recentemente com Bruno Latour.
Com Jung fez-se luz sobre o que é o caminho da individuação. No fundo o caminho da individuação seria aquele movimento de procura interna que em simultâneo compreendia a busca pelo colectivo universal e ao mesmo tempo a objectivação do eu através das peculiaridades individuais: ou seja, a individuação em Jung é esse movimento duplo entre o universal e o peculiar individual.
Com Simondon foi possível entender as relações entre ordens diferentes: a individuação não acontece apenas com ordens psicológicas ou sociológicas, mas também entre objectos, entre seres e entre fenómenos transdisciplinares (biológicos, físicos, químicos, etc. – nestes casos chamar-se-ia de transdução).
Com Bruno Latour, e através do conceito de tradução, o mundo, e os seus problemas, é dado como um lugar de traduções, traduções entre coisas materiais e coisas imaterais.
Todas estas conclusões permitem-nos falar com alguma segurança teórica sobre esta nova combinação, que advém sobretudo da força e da ubiquidade da tecnologia sobre o humano actual. Perguntemo-nos então: o que é que significa esta mais recente expressão do individualismo? O que é, como é e de que combinações nasceu esta personalidade mediada?
Esta nova expressão do individualismo, que em coerência com o pensamento de Simmel decidimos chamar de personalidade mediada, nasce da ligação complexa entre o indivíduo e os objectos técnicos, sobretudo a partir do automóvel. A partir de uma relação mais horizontal e mais simbiótica nasceu uma corrente forte de ligação entre objectos e humanos, corrente de mediações que culmina com os vários aparatos tecnológicos mais recentes (Ipad, XXX).
Com o automóvel, e sobretudo com a sua massificação, é desencadeada uma ligação até então rara entre objecto e humano. A ligação com o automóvel distingue-se da ligação com o comboio, com o barco ou até com o avião nos seguintes aspectos: com estes, embora estivéssemos perante um objecto complexo, que nos transporta, reveste e protege, criando uma subjectividade simples do dentro do objecto (elemento integrante do objecto), a relação objecto-indivíduos/passageiros é distante, uma vez que estes não experenciam o seu controlo nem uma relação individualizada; com o automóvel, o indivíduo iniciou uma relação de maior horizontalidade e proximidade com o objecto, onde a subjectividade dentro do objecto se complexificou dado o nível mais elevado de simbiose, coordenação motora e coordenação de sentidos, já que o controlo está a seu cargo ou em negociação permanente e a relação dinâmica é directa entre objecto e sujeito. Daqui resultaram três grandes aspectos: nível de simbiose historicamente inédito; horizontalidade e interdependência inédita entre máquina e humano; poder conferido pelo aumento exponencial de mobilidade, de transporte, de autonomia e de velocidade. Combinados estes grandes aspectos, indivíduo e automóvel originaram a primeira grande e complexa simbiose individual, algo que conferiu às personalidades livre e singular combinações inéditas: estar na paisagem mas dentro do invólucro (automóvel); estar na sociedade mas mediado por um objecto que detém e confere uma certa aura; existir com mobilidade aumentada capaz de comprimir tempo e espaço.
Ora, esta simbiose foi-se complexificando, já que os piscas substituíram as indicações manuais, as luzes dos faróis a focagem visual sobre a estrada, a caixa de velocidades o desejo de aumentar a velocidade, a luz de travagem a indicação verbal de travagem, e por aí adiante até aos mais sofisticados e actuais sistemas de navegação automóvel. Mas esta não fora a única simbiose que suscitou o individualismo numa lógica de mediação complexa. Quando o ecrã do cinema, que dizia a vida pela projecção, foi arrancado para a sala de estar em frente ao sofá, através da TV, uma nova mediação individualizada, em massa, alterou radicalmente as subjectividades do individualismo. A partir daqui o mundo passou a ser visto, sentido e vivido também pelo ecrã-TV, ou seja mediado pelo ecrã mas de forma individualizada, personalizada e singularizada. Com os vários programas e os vários canais, com as várias combinações possíveis e as possíveis escolhas pessoais, a simbiose entre ecrã-Tv e indivíduo fez-se de uma forma mais fria, já que o cinema é um «meio quente», isto é, um meio “que prolonga um único de nossos sentidos e em alta definição” (Mcluhan, 2007: 38), onde existe uma alta saturação de dados e onde o espectador não consegue introduzir muito mais do que o que lhe é oferecido. Já a televisão é um «meio frio» pois prolonga vários sentidos e habitualmente em baixa definição. De facto, as diferenças são claras: um meio quente como o cinema permite menos a participação dos indivíduos do que um meio frio como a televisão, pois no cinema o indivíduo é conduzido pela sua atmosfera e o silêncio é imposto pela sua gestão e formato; já na televisão o indivíduo vive a sua atmosfera dentro do seu ambiente, e com o zapping comanda as suas preferências. Neste caso a conversa e a multi-tarefa é permitida e até suscitada pela atmosfera implícita da televisão. Portanto, se os meios quentes ao mediarem destribalizam, porque tendem a gerar a homogeneidade e a ligação com o todo, então os meios frios medeiam (re)tribalizando, pois permitem a formação de tribos de interesses, gostos e motivações, bem como uma mediação mais aberta e possibilitando a multi-tarefa através do apelo a vários sentidos (como o fez (e faz) a televisão) (Ibid.: 40). Isto não quer dizer que o cinema não permitiu uma simbiose potente. A diferença é que a mediação com o ecrã-Tv permitiu uma maior ligação com outras actividades e com outros níveis de captura e de utilização de sentidos.
No entanto, a complexificação das mediações não cessou por aqui. À cultura mediática centralizada e top-down dos mass-media (cinema e televisão) somou-se então uma outra cultura, de «todos para todos», mais horizontal (como acontecia, ainda embrionariamente, com o automóvel), cultura que permite a passagem da emissão à conversação, da interacção reticular à interacção pessoal, da ligação fixa à ligação móvel, da simbiose simples à simbiose complexa.
É verdade que com o telefone assistimos a mudanças brutais nos níveis de ligação entre indivíduos e sociedades. Porém, com o telemóvel muito mais do que isso foi conseguido. Se a ligação mediada pelo sinal telefónico foi um passo de gigante para a libertação e para a compressão do espaço-tempo, com o telemóvel, para além desse facto, conseguiu-se seguir o rasto à presença, a uma tele-presença. Mediação móvel e portátil, completamente simbiótica ao corpo e ajustável à biologia humana, o telemóvel sublinhou nas massas a expressão célebre de Mcluhan (XXX): «os meios de comunicação como extensões do homem». Se o automóvel era já uma extensão da mobilidade e da velocidade humana, o telemóvel passara a ser uma extensão da possibilidade de ligação humana, permitindo o contacto simples, instantâneo, em qualquer lugar – foi uma espécie de teleportação da ligação, do contacto, teleportação da comunicação de conscientes e de inconscientes. Comprimindo o espaço e o tempo da ligação, o telemóvel aumentou o tele-contacto e diminuiu o contacto face-a-face, possibilitando o alargamento de redes de contacto, bem como o risco e a propensão para a interacção imediata.
Ao mesmo tempo do desenvolvimento do telemóvel, o computador incorporou também a portabilidade, mas mais do que isso: criou um ciber-mundo, permitiu a ciber-existência, e misturou de forma a fazer convergir quase tudo lá dentro: ecrã quente e/ou frio, componentes da ligação à tele-distância, correio, plataformas de partilha de informação, criação de ciber-redes de ligação, e até ligação visual e auditiva através da vídeo-conferência. Com a máquina das máquinas (computador), até a presença física ficou ameaçada com a tele-presença, tele-presença ainda rude mas a ganhar espaço nos criadores e inovadores tecnológicos sobretudo com os recentes avanços da realidade virtual e do desenvolvimento do tal fato de dados que Virilio tanto explorou teoricamente (XXX).
Foram todas estas mediações que fizeram emergir, a vários níveis, novas configurações na organização social e na forma de ser, pensar e sentir dos indivíduos: na economia, por exemplo, à livre concorrência e à divisão do trabalho em função das competências e singularidades humanas acrescentou-se uma economia mediada, ligada em rede pela corrente de objectos técnicos mediadores, uma economia-mundo que se flexibilizou até ao extremo para poder integrar as várias contribuições globais. Um bom exemplo é perceber como funcionam as bolsas de valores dos vários países: poderíamos dizer, de uma forma figurada, que a economia dos mercados financeiros é mediada e acontece muito por força dos ecrãs e das respectivas ligações em rede; na política, por exemplo, vemos como a força das ecranovisões permite a captura de forças para a mudança política, como é o caso recente dos países que actualmente tentam imitar a revolução de Israel para se libertarem dos seus estados autoritários (Bahrain, Iemén, Líbia, Irão, etc.); na sociedade vemos recorrentemente a facilidade de propagação de modas e de tendências de vários tipos (culturais, linguísticas, atitudinais, de pensamento, etc.) através de mediadores. O Facebook é um bom exemplo de uma nova configuração da moda para mediar as relações. Urge por isso a pergunta: o que é que o homo-mediadus trouxe de inovador ao mundo actual?
Não foi propriamente o fim da tradicional LUTA DE CLASSES que o homo-mediadus trouxe de novo. O que mudou foram as relações de poder e de dominação. É que as relações de dominação são hoje totalmente diferentes do passado: os consumidores são também produtores (prosumidores), ao contrário do que acontecia na modernidade. Ora, assim, o homo-mediadus representa a figura dominante na era tecnológica, pois é para ele que o poder retorna através das múltiplas possibilidades de mediação. E como classe dominante, a sua grande ostentação é a intensidade e complexidade das suas mediações e estimulações nervosas, que tentam ser imitadas pelas restantes classes. Por exemplo na caso das modas, ou dos conflitos, estas também existem no ciber-mundo, mas são exemplos de como a sua expressão confere, ao homo-mediadus, um poder de acção e de diferenciação; o facebook, por exemplo, não é sequer o resultado de uma moda no sentido tradicional, já que não é atravessado pela lógica anterior que sustentava a base da dominação de classes. Nessa lógica anterior, a classe dominante praticava a moda, e a classe dominada, ou seja a totalidade, caminhava em direcção a ela - quando lá chegava, essa deixava de ser moda (Simmel, XXX: 31). No cibermundoisso não acontece assim. O homo-mediadus pode ser qualquer coisa, qualquer ligação complexa. O que assenta na base das modas do cibermundo, como resultado da figura dominante «homo-mediadus», é a capacidade de ligar múltiplos indivíduos e de os tornar cada vez mais mediado-eficientes. É a eficiência da ligação que constitui a base da moda na era do homo-mediadus, já que é lá que assenta a sua capacidade de dominação nesta era da técnica.
Onde está então unidade do homo-mediadus? Afectado por estas mediações capazes de por um lado o diferenciar e por outro sustentar a sua igualização social, mantém-se unido para preservar o seu estado mediado e com essas múltiplas possibilidades de mediação se diferenciar hoje: o modo de pensar, de agir, a cadência dos seus fluxos, a cadência das suas mudanças sociais, o ritmo das suas vidas; tudo dinâmicas determinadas essencialmente pelas mediações tecnológicas; assim se sustentam: humanos mediados pelos objectos técnicos com lógicas semelhantes comportam-se de modo relativamente semelhante, isto é mediadamente. É que a mudança e evolução das mediações mostram a medida do excesso da sensibilidade; quanto mais mediada for a humanidade mais espaço existe para a fusão entre ordens diferentes, já que a fusão de estímulos de ordens diferentes e diferenciadores, um dos sustentáculos do homo-mediadus, caminha de braço dado com o crescimento de energias nervosas complexas.
Poderíamos, no entanto, multiplicar os exemplos. Todavia, mais importante do que os exemplos é perceber as transformações que estas dinâmicas evolutivas fizeram nos indivíduos, originando assim esta tal personalidade mediada. Como é que estas correntes de objectos técnicos mediadores fizeram emergir este tipo de personalidade?
Somos seres de imitação, desde o nascimento até à morte. Mas não imitamos apenas nem sem selecção. Também somos singulares, e dentro da singularidade que nos distingue dos outros há forças internas que nos impelem para a diferenciação, para a micro-diferença . Imitar e diferenciar é um jogo constante no indivíduo e na sociedade. Imitamos criando assim estruturas que nos permitam viver em conjunto, e diferenciamo-nos para nos singularizarmos. Mas com os objectos técnicos estendemos a nossa existência, quer colectivamente como individualmente. Os factos colectivos entram no indivíduo através dos processos de socialização, e saem já com a introdução das singularidades e micro-diferenças individuais (individuação). Ora, este processo acontece também com os objectos técnicos (Neves, XXXX): os objectos técnicos são usados e apreendidos através da socialização do seu uso; no entanto, com a introdução das singularidades e micro-diferenças individuais, o seu uso e as suas utilizações ou formas de utilizar sofrem pequenas diferenciações, singularizadas pelos indivíduos. Assim, os objectos em contacto com os indivíduos medeiam a acção, o pensamento e o sentimento humano, gerando uma semelhança colectiva, característica dos efeitos da relação entre objecto e sujeitos, ainda que individualmente gere micro-diferenças na acção, no pensamento e no sentimento humano. Isto é, uns pensam o objecto como uma extensão do corpo humano e das sensações, outros como meio, outros como fim, outros não pensam e apenas o usam, etc. Porém, as imitações, bem como as diferenciações, às lógicas de funcionamento e de possibilidade conferidas pelos objectos técnicos são feitas (individuadas): vimos no exemplo do automóvel o pisca a substituir o braço humano; vemos no ecrã, por exemplo, o outro a rir por nós (por exemplo os espectadores de estúdio dos talk-shows); vemos no telemóvel a presença face-a-face a dar maior lugar à tele-presença, permitindo uma exploração diferente dos assuntos dada a ausência de comunicação analógica; vemos na Internet as reuniões e as conversas presenciais a serem feitas em chats de conversação ou redes sociais digitais, conferindo libertação às limitações presenciais do corpo. Ora, todas estas mediações e mais algumas foram lentamente erguendo uma existência cada vez mais mediada por objectos técnicos, e tal ubiquidade de mediações fora capturada pela força da individualização humana. Socialmente, com pequenas variações introduzidas pelas micro-diferenças das singularidades individuais, os indivíduos foram capturando a lógica da mediação, individuando os seus aspectos e introduzindo-os nas formas de pensar, sentir e agir, fazendo portanto emergir uma personalidade mediada. É que, como assinala Kerkhove (1997: 32), “somos perfeitamente capazes de integrar dispositivos na nossa identidade, certamente no nosso corpo. Uma tal capacidade prepara o terreno para o desenvolvimento necessário para uma nova psicologia que esteja mais bem equipada para lidar com o mundo que temos pela frente”.
Perguntemos agora: que efeitos concretos tem essa personalidade mediada no quotidiano dos indivíduos e da vida em sociedade?
Moisés Martins (2011) fez um resumo de alguns aspectos negativos da evolução humana, apontando três grandes consequências: 1) a ordem ideológica da modernidade deu lugar à «ordem sensológica» (Perniola), onde a vida é vivida levando mais em conta as sensações e as emoções; 2) num mundo os as mediações se misturam e os objectos se interligam constantemente, nasceu um império de «meios sem fins» (Agamben). Para que servem tantos meios (e objectos) que são construídos?; 3) dentro de uma lógica global, há um movimento contínuo que obriga os indivíduos a estarem constantemente em «mobilização infinita» (Sloterdjik) para um mundo que se exige global.
Mas podemos ainda somar mais dois aspectos citados por outros dois autores: a existência de um «hiperindividualismo» que desorienta os indivíduos e lhes retira o culturamente diferente (ideia de cultura-mundo) (Lipovetsky); e um excesso de hedonismo que tende a aumentar a exposição da organização social (da família, da escola, do trabalho, etc.) e mergulha-la no caos da vida pelo «eterno instante».
Não existem, todavia, apenas coisas negativas nas mutações sociais recentes. Há também coisas positivas, coisas de um natural desenvolvimento civilizacional nesta tal personalidade mediada. Por exemplo, vários são os estudos que apontam para um maior desenvolvimento do raciocínio intuitivo. Aliás, não é por acaso que os sistemas de ensino e as teorias pedagógicas actuais convergiram para métodos mais de ordem intuitiva e associativa, ao invés do método repetitivo muito usado na modernidade. Há também duas consequências que provém, ou que foram capturadas, da lógica eléctrica/electrónica: a capacidade de comutação e a capacidade de multi-tarefa. Ligar e desligar sempre fora uma condição da humanidade, tal como Simmel demonstrou em A ponte e a Porta(XXX). Todavia, com a tecnologia recente esta capacidade potenciou uma maior capacidade de adaptação aos sistemas técnicos, e isso entrou pelas individuações dos sujeitos - para o bem, como por exemplo uma maior flexibilidade e adaptação no desempenho de vários tipos de tarefas; e para o mal, como por exemplo no casamento, onde este é cada vez menos duradoiro e mais transitório já que a comutação também se apreendeu ao nível das relações pessoais). Um outro aspecto prende-se com os níveis de partilha de informação, que com os apelos do mundo informático excederam qualquer nível de comparação histórica, e também os níveis de cooperação, multiplicidade e pluralidade atingiram níveis nunca antes vistos, graças sobretudo às possibilidades conferidas pelas redes e ligações digitais. Ou seja, o recurso à Internet e aos vários sistemas técnicos mediadores funcionam como alternativas aos sistemas tradicionais de vida, permitindo a diminuição das diferenças e das forças mais típicas: masculinidade, violência face-a-face e vista-a-vista, imposição vertical de tendências e modas (por exemplo, com os mediadores tecnológicos é possível a criação de novos e diferentes mundos – Internet, vídeo, videojogos ou jogos online (ex: Second Life), relações pessoais de pessoas que no ambiente não mediado seriam mais difíceis ou até impossíveis), etc. Ou seja, os vários tipos de mediações também conseguem libertar e potenciar coisas e dinâmicas que sem mediação se tornariam mais difíceis, custosas ou incomportáveis.
Vemos, portanto, esta personalidade mediada como uma projecção, no indivíduo, de características que foram transitando, em fluxo e em duplo sentido, entre homem e máquina. Esta personalidade mediada encontra-se sobretudo nas gerações mais jovens da actualidade – aquelas que na história da humanidade mais aparatos tecnológicos usaram, e que pela força e ubiquidade da técnica e dos estímulos nervosos se instalaram nos meandros da mente, das formas e dos conteúdos de vida do indivíduo pós-moderno. A massificação dos vários tipos de produção, dos vários tipos de consumo, dos vários tipos de ensino, dos vários formatos de media, até dos vários tipos diferentes de cultura foi, no Ocidente, avassaladora, obrigando de forma crescente e complexa à constante adaptação e (re)ajuste do indivíduo a milhares de estímulos nervosos de várias ordens e tipos. Todos esses estímulos nervosos ecoaram na expressão dos indivíduos, gerando ressonâncias que o levaram a aceitar e a viver o mundo de forma diferente da do passado.
No entanto, não quer isto dizer que a personalidade mediada seja indiferente às conquistas do passado. Esta tem como assente a importância da personalidade livre e a importância da personalidade singular, mas quer liberdade como singularidade são entendidos por esta figura de uma forma diferente da do passado.
Em primeiro lugar, a liberdade que se almejava no século XVIII e que lentamente se foi conquistando até ao último quarto do século XX sofreu etapas diferentes, e por isso também projecções individuais e sociais diferentes. A liberdade dos séculos XVIII era uma liberdade quantitativa, na medida em que o que importava era preencher e iluminar uma atmosfera diferente da Idade Media.
Depois seguiu-se a procura por uma liberdade mais do tipo qualitativo, que buscava o si-mesmo como horizonte primordial, à procura da unicidade e distinção (século XIX e início do século XX). Mas depois do caos e da destruição provocado pelas guerras, e depois de perceber que a liberdade conferida pela razão não continha o prazer de viver a vida pela vida, eis que a «ordem sensológica» (Perniola), sobretudo pela crescente importância dos objectos no quotidiano, introduz uma libertação extrema, onde para lá da anulação das velhas convenções sociais, até o uso do corpo do indivíduo passa a ser gozado de forma diferente. Quer isto dizer que a relação do indivíduo com a noção de liberdade foi esticando os limites do que é ser livre, do que é ser humano e do que é viver um tempo suspenso (MaffesoliXXX). A tecnologia permitiu grande parte desse alargamento da noção de liberdade: o corpo como uma extensão da técnica, a ideia constante de ligação instantânea, a força da velocidade da luz, a capacidade extrema de comutação (zaping), a tele-visão e tele-existência, etc.
O mesmo se passou com a relação entre o eu e singularidade. Não ignorando a personalidade singular, o indivíduo de hoje segue o caminho em busca do si-mesmo, mas não com as referências do passado. Desde o século XVII, mas sobretudo no século XIX que o grande arquétipo orientador do desenvolvimento da humanidade é o do herói. Contudo, o herói da revolução industrial – normalmente objectivado pelo estado paternalista democrático, protector e justo – foi-se desgastando com a erosão dos tempos. Depois desse desgaste brutal do herói que prometeu encontrar a liberdade, a igualdade e a fraternidade, sem nunca a cumprir completamente, eis que o próprio arquétipo do herói se muta e se identifica com o vizinho do lado, com o amigo, com o exemplo do simples e do humilde humano que trabalha e luta para vencer os obstáculos do quotidiano. É esse renovado arquétipo do herói, que resulta dos ecos e das ressonâncias provocadas pela explosão da imagem de Deus, sobretudo pela substituição de Deus pela máquina fragmentadora de imagens (Miranda, 2008XXX), que serve de base para o caminho de encontro ao si-mesmo. As grandes forças que ajudam a construir hoje o caminho do si-mesmo são forças individuadas, na medida em que pretendem integrar o todo, material e imaterial, constituindo ligação directa e sem oposição ou limitação estanque entre a nova liberdade e as novas singularidades.
Importa pois salientar que esta nova figura do individualismo não deve ser encarada como pejorativa ou extremamente eufórica. Aceitar a sugestão de um pensador insuspeito porque moderno como Simmel poderá ser útil, pois “a esperança é que o imprevisível trabalho da humanidade produza sempre mais, e sempre mais variadas formas de afirmação da personalidade e do valor da existência. E quando em períodos felizes essas variedades consigam chegar a formar conjunções harmónicas, suas contradições e lutas não sejam vistas apenas como obstáculo, mas sim como potenciais para o desenvolvimento de novas forças e criações” (Simmel, XX:9). Quando vemos diferenças significativas entre as disposições dos membros de uma geração mais antiga para com outros membros de outra geração mais recente grande parte das diferenças residem nesta forte presença de forças diferentes. Nos mais jovens esta força proveniente da personalidade mediada entra facilmente em atrito com as gerações mais velhas, precisamente porque estas últimas se baseiam em duas personalidades que se objectivaram e se legitimaram sobretudo através da lógica económica (livre concorrência e divisão do trabalho) da especialização-objectivista, ao passo que a figura da personalidade mediada advém das possibilidades subjectivistas (traduções e transduções) conferidas pelas mais recentes tecnologias.
A este respeito Bergson vai até mais longe quando descreve a lógica que nasceu com a aquisição historicamente recente da lógica económica, algo que segundo ele não tem precedentes: a lógica do pensamento coordenado-económico “destaca para começar, de um conjunto, a traço grosso, certos princípios, e exclui depois desse conjunto tudo o que não concorda com eles” (Bergson, XXx: 35). É obvio que esta lógica está muito assente na síntese que resulta da ligação entre personalidade livre e personalidade singular da modernidade, pois no pós-moderno acontece algo de diferente: destaca-se, a um traço grosso, alguns princípios, mas não se exclui nada; pelo contrário, ou se aproveita de tudo um pouco, e por vezes até de forma confusa, ou então reaviva-se mais tarde na mesma ou numa outra forma e/ou ordem.
A questão é que estamos, dentro da mesma força económica de base, sujeitos a novas configurações sociais. Há uma nova economia que emergiu com as redes, e que tornou um mundo que no passado estava desligado e hoje mais do que ligado: hiperligado. Tal como um ponte, a lógica da rede global que é a internet possibilitou ligar culturas e povos, hábitos e crenças, estruturas e mentalidades, todas afinadas por uma mesma lógica. E essa ligação global introduziu efeitos concretos, não apenas na organização da vida mas também na organização do pensamento e da acção. Tal como no passado, também agora os indivíduos projectaram na sua personalidade as características da rede: ligar o desligado, desligar o ligado, comutar constantemente e em funcionamento múltiplo, ser instantâneo como a velocidade da Internet e móvel como os telemóveis.
No sentido inverso também a nova economia capturou essas tendências reticulares. Um bom exemplo disso é o movimento especulativo em rede dos mercados financeiros. Ele é especulativo por causa da rede, pois é ela que permite ligar o desligado e desligar o ligado. Só que é hoje um processo sem controlo, um poder por um lado fortemente simbólico e abstracto (bourdieuXXX) e por outro um poder sem propriedade (Foucault (Vigiar e punirXXX). E essa ausência de propriedade, misturada com a abstracção do simbólico, conferiu um poder que ultrapassou qualquer barreira, onde todas as velhas lógicas de organização (incluindo a económica) se desactualizaram e esfumaram.
Esta constante e complexa corrente de movimentos e de transduções, das dinâmicas sociais para os indivíduos e dos indivíduos para as dinâmicas sociais, criaram pelo menos um, este novo tipo de personalidade histórica. Para já uma personalidade que não se revê na personalidade livre e na personalidade singular do passado, pois as forças da época não são as mesmas de hoje. Hoje as forças mais prementes são as da velocidade, da instantaneidade, da portabilidade, da multi-tarefa, da compressão espaço-temporal e da realidade ecrãnica – digo ecrãnica porque este termo abarca todas as formas de expressão através de ecrãs, que hoje como nunca no passado estão por todo lado e em todas as dimensões da vida: nascimento, sexo, morte, etc. E depois uma personalidade mais complexa, mais snob no sentido em que o snobismo representa o excesso de estímulos nervosos recebidos, mais fragmentária e dissimulada já que a complexidade da vida e da organização dessa mesma em todos os dias se multiplicou.
Vivemos então, hoje mais do que nunca, uma vida mediada. Mediada por intermediários construídos ora para nos substituírem, ora para agirem por nós ou sob o nosso comando. E tudo aquilo que medeia a nossa existência influencia e transfere para nós o que somos, o que pensamos, o que sentimos, o que fazemos. Pensemos por isso no que acontece quando as nossas mediações nos permitem ser mais velozes, mais instantâneos, mais portáteis, mais multi-tarefeiros, mais capazes de transpor as distâncias e os tempos, enfim, mais ecrano-mediados?
Ora, se vemos cada vez mais a vida pelos ecrãs e nos ecrãs, pelos automóveis e através dos automóveis, pelos telemóveis e através dos telemóveis, pelos ecrãs e através dos ecrãs, também deles capturamos uma série de lógicas para a nossa actividade quotidiana. Sendo seres de imitação, e sendo a sociedade uma imitação mediada pelas micro-diferenças dos seus membros (tardeXXX), todas as características atrás mencionadas (velocidade, instantaneidade, portabilidade, multi-tarefa, compressão espaço-temporal) já estão bem decalcadas em nós, constituindo assim a base para uma síntese cultural diferente da do passado. Essa síntese originou essa tal personalidade mediada, personalidade que entende o mundo através do resultado de uma subjectivação entre mundo orgânico e mundo inorgânico. Por exemplo da rede Internet, sobretudo da lógica de hiperligação a tudo, os mais jovens retiraram muitas lógicas e dinâmicas que nem a personalidade livre nem a singular haviam tido: eles capturaram a lógica da multi-tarefa em simultâneo, da compressão espacial e temporal de coisas, da conversão de sistemas, da velocidade, etc. Ou seja, o indivíduo imita as lógicas que captura em todas as coisas, essas propagam-se como coisas sociais, e soma a essas imitações as micro-diferenças. Por exemplo, a ideia de multi-tarefa muito usual nos browsers da Internet e muito usada pelas gerações mais ecranoligadas, é imitada noutras situações, e evolui através de microdiferenças introduzidas nessas imitações. O fenómeno que está a gerar jovens cada vez mais rápidos a pensar mas mais saltitantes de assuntos em assuntos é a consequência dessa imitação e dessa propagação social.
Esta diferença leva-nos a pensar num tipo concreto de mutação global: do homo-economicus ao homo-mediadus – no sentido em que depois do homem livre e do homem singular (fusão entre as projecções individuais e colectivas retiradas das lógicas economicistas), o homo-mediadus é a resposta ao excesso de objectivismo proveniente do ensino, da política, da economia, da especialização profissional, da moral das razões socialmente instituídas ou da estética generalizada, entre outras coisas. Este aparece como uma (re)adaptação ao mundo das conexões e das mediações, precárias e fragmentárias, multi-modais e mutáveis, potencializadoras ou perigosas, tendencialmente efémeras no tipo mas duráveis na forma. E nesse turbilhão complexo, sobretudo dinamizado pelas redes digitais e telemáticas e pelos inerentes objectos técnicos, o homo-mediadus retorna ao princípio subjectivista construindo roteiros alternativos de vida. A cibercultura que envolve essa personalidade mediada tem esse condão: gerar a horizontalidade entre humanos e não humanos (Lemos XXX), potenciar estruturas reticulares de socialização e (re)estruturar o tradicional, o cultural e o desejo com base nos suportes mediadores.
A este respeito Derrick de Kerkhove vai até mais longe, afirmando mesmo que embora as mediações actuais, sobretudo as electrónicas, estejam a inverter os efeitos da literacia e da linguagem, isto não significa que estejamos a assistir a uma catástrofe, mas antes um regresso à cultura oral em detrimento da cultura letrada. Para este autor esta ignorância em relação à cultura letrada é, na cibercultura, uma vantagem já que os indivíduos não programados pela cultura letrada serão funcionalmente mais valiosos na cibercultura: ao estarem mais libertos de concepções ideológicas ou das teias do pensamento racional, tornam-se mais flexíveis para a aprendizagem das novas tecnologias, pois não lutam contra os velhos condicionamentos e contra as estruturas mentais do pensamento letrado – o tal exemplo, referido anteriormente, do crescente desenvolvimento da lógica intuitiva (Kerkhove, 1997:26).
Há, aliás, uma tensão bem visível nos efeitos produzidos pelas mutações e evoluções de objectos, de ferramentas, de formas e de acções sociais que decorrem do desenvolvimento das coisas. Por exemplo, o homo-economicus, munido da combinação entre a personalidade livre e singular, tende a ver na tecnologia reticular o Big Brother que limita e impede a liberdade individual; o homo-mediadus, munido da síntese entre a personalidade livre, singular e mediada, vê na tecnologia reticular um potencial enorme, para o bem ou para o mal, de individuação e de desenvolvimento humano, pois concebe uma ideia mais ampla de liberdade e de singularidade, eliminando os atritos comuns da modernidade através da individuação natural da lógica reticular.
Outros exemplos poderiam ser aqui explorados para mostrar estas diferenças. E é mesmo a palavra a sublinhar: diferenças. Não se trata de afirmar a maior capacidade do homo-mediadus perante o homo-economicus ou vice-versa. Poderíamos, por exemplo, sublinhar alguns tipos de dificuldades de auto-reflexão crítica do homo-mediadus e das suas dinâmicas contemporâneas face ao homo-economicus. Mas mais importante do que ver vantagens e desvantagens num ou noutro lado é perceber como emergem, e como podem ainda emergir, outros potenciais e outras forças que nos levam e nos podem levar a outros níveis do desenvolvimento, inovação e criação humana.
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5 dias atrás

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